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Depoimentos (2)

Luis Fernando Verissimo

“Brésil? Conheço, sim. Fui fazer uma pesquisa la bas. Todos os brasileiros que eu conheci aqui em Paris eram travestis e eu pensava que no Brasil só tinha travesti. Não entendia quem apagava os incêndios, trabalhava de estivador, essas coisas de homem, n’est pas? Passei um ano pesquisando no Brasil e continuo não entendendo. Inclusive fiquei grávida no Brasil e até hoje não sei como foi”.

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“Eu cheguei aqui em Paris num grupo de dança folclórica, o ‘Bumba mon Boeuf’, mas não deu certo. Aí eu fiquei um tempo tocando agogô no metrô, depois fui modelo e hoje sou faxineiro cantor. Faxineiro e cantor, não. Faço faxina cantando música brasileira, que francês adora. Me chamam de “le bresilen fou” e, olha, não dou conta da clientela. Estou pensando até em trazer a minha mãe do Brasil par esfregar chão, porque chão eu não esfrego”.

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“Eu estou fazendo psicologia e letras na Sorbonne. Minha tese á a lógica cartesiana e o discurso pós-moderno, e no semestre que vem vou fazer um curso sobre a cibernética e a mousse de chocolate. A não ser que o papai deixe mesmo de mandar a mesada, aí vou ter que voltar pro Brasil. Diz que lá tá a maior zorra, não tá não”?

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“Meu nome é Jean-Paul Pigeon, sou assistente de chef e minha especialidade e fazer florzinhas de tomate como esta. Só o que eu faço é florzinha de tomate para decorar os pratos que saem desta cozinha, faço as florzinhas com muito amor e nem gosto de pensar nas minhas florzinhas sendo mastigadas e engolidas antes mesmo de serem apreciadas. Eh, bien, nós os assistentes de chefs somos assim, trabalhamos para o deleite de poucos segundos. Somos artistas do efêmero, o que se pode fazer? Ah, sim, nós os assistentes de chef somos muito filosóficos. Você não seria se tivesse que passar o tempo todo fazendo florzinhas de tomate”?

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“Olhe este queijo, que beleza. Sinta o cheiro. Mmmmm... E este aqui. Mmmm... E este? Mmmm... E este? Epa. Este está com cheiro bom. Deve estar estragado”.

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“Perdi este braço lutando contra os alemães em 14. Perdi esta perna lutando contra os alemães em 42. Perdi esta mão lutando na Indochina. Perdi este olho lutando na Argélia. Agora, a outra perna foi distração”.

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“Faço ponto nesta esquina há 40 anos, cheri. Ça va, papi? Viu aquele? Fui a primeira mulher da vida dele. Hoje ele mal pode andar, o coitado. Teve gente que começou comigo, depois trouxe o filho pra começar comigo também. Muita gente importante já subiu a escada pro meu quarto. A Terceira República quase toda. Você não quer subir também, cheri? Faço o que você quiser. Faço... como é que se chama aquilo? O memória. Bien, na hora eu me lembro. Quer subir? Quer mesmo? Olha que são quatro andares sem elevador... Você não prefere ficar aqui conversando não”?

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“Taí, me disseram que o negócio pra brasileiro ganhar dinheiro aqui em Paris era virar travesti e eu fui atrás. O que eu tenho me incomodado, cara! Volta e meia aparece um francês se engraçando comigo e eu tenho que engrossar. Tão me achando com cara de que? Olha, aí vem outro. Vai levar bolacha”.


Domingo, 4 de setembro de 2005.



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